A Sra. Petre já não era mais a mesma depois que perdera o Sr. Petre. O marido a deixara com a responsabilidade de cuidar dos três filhos; Hugo, Eduardo e a pequena Raquel. As últimas coisas de valor foram quitadas pelo velho Klaus, o dono da casa onde ainda moravam em troca dos meses que deixaram de pagar o aluguel. O dinheiro não dava nem para fazer uma ceia de natal, que por sinal, já estava se aproximando. A única saída que lhes restavam era ir morar por um tempo na Casa de Campo da tia Klara. Nos arredores da última cidade do Rio de Janeiro.

Hugo era o mais velho. Tinha quinze anos, e sentia-se o responsável pela casa, pela mãe e pelos irmãos, depois da morte do pai. Trabalhava como entregador para o Sr. Vitélio, o padeiro da esquina, ganhando vinte e cinco centavos por cada dezena de pães entregue. Eduardo tinha doze anos, era o mais levado (talvez fosse por saudade do pai) e Raquel, a caçula com nove anos.

Hugo não estava em casa naquela manhã e a Sra. Petre ficara com Eduardo e Raquel: estavam na cozinha tomando o café da manhã. Um barulho de batida soou da porta da sala e a mulher estremeceu. Depois de três segundos mais uma batida acompanhada de uma voz rouca e apática.

- Abra Sra. Petre. É o Sr. Klaus – berrou o homem do lado de fora. Batia a porta como se estivesse martelando um prego. – Trouxe um Oficial de Justiça. Abra essa porta de uma vez.

Ao ouvir isso, a Sra. Petre se desesperou.

- Já estou indo Sr. Klaus – avisou ela, indo até a porta e abrindo-a. Viu em primeiro plano a cara pálida do velho de cabelos prateados acompanhado de um homem de terno.

- Entre Sr. Oficial – mandou ele, empurrando a porta com a bengala. – Como vê, essa é uma família que não tem mais como pagar o aluguel.

O velho fixou na mulher um olhar severo.

- Só mais alguns dias. Por favor, Sr. Klaus – implorou a mulher, fechando a porta e acompanhando o velho e o Oficial de Justiça. – Não temos...

- Mostre a ordem de despejo Sr. Oficial – disse o Sr. Klaus, interrompendo a mulher.

A Sra. Petre suspirou.

- O senhor não pode fazer isso!

O velho mudara o seu rosto para um tom furioso.

- Essa casa me pertence. E vocês estão fora dela. Já. Arrumem as suas coisas e saiam daqui imediatamente.

Eduardo se afastou da mesa e se aproximou da janela.

- Mamãe.

- Agora não, Edu!

- Arrume as suas tralhas e saia daqui, ou... serei obrigado a mandá-lhe presa – retorquiu secamente o velho, fazendo um sinal com a cabeça para o Oficial de Justiça. – E garanto que a senhora não irá querer ver os seus filhos em um orfanato ou em um abrigo qualquer, certo?

- Tenha paciência. Por favor. Eu prometo que amanhã sairemos da sua casa – implorou novamente a mulher, esfregando os olhos com os dedos.

A Sra. Petre inspirou profundamente e continuou:

- Sr. Klaus. Hugo não está em casa.

- Lamento – respondeu o velho com frieza.

Eduardo viu o velho sair da sala e bater a porta.

- Olhe aquilo – falou o garoto, indicando da janela três policiais conversando com o Oficial de Justiça.

- Meu Deus... o que faremos agora? – gaguejou a mulher, sentando-se na cadeira velha que estava no canto da parede. – Arrumem tudo queridos... Vamos.